Kate´s Life


14/09/2005


Kate não tinha amigos. Kate os procurava.

 

A rua de Kate, deserta, você já conhece, abriga casas antigas de madeira, e abriga saudades de tempo (novamente o tempo) não volta mais. Pela janela da sala, os vidros embaçados, ela observa os poucos que ali circulam. Ninguém chega perto da casa de Kate, nem mesmo o carteiro. Mesmo porque não há correspondências que liguem Kate ao mundo exterior. Kate nem sequer tinha um computador. Não tinha uma TV. Nem lia os jornais. Kate tinha seu próprio tempo, sua própria vida. Seus interesses que não eram políticos, nem sociais. Kate não queria ser reconhecida nas ruas, nem no próprio bairro. Ela era só. Só dela. Só do mundo. E repleta de ilusões incabíveis que a faziam sonhar. Na janela, porém, algo lhe chamou a atenção: Um menino passava, alguém de mais ou menos a sua idade (Kate observou os traços do rosto, a mesma tática utilizada na hora de pintar). Kate observou o quão bonito era, singelo, cabelos com a cor do sol, olhos brilhantes e azuis, pequeninos. Passava ele com pressa, olhando para a frente, nem sequer viu Kate ou mesmo a casa onde estava. Kate saiu. Cabelos negros, olhos expressivos, caminhar aguçado e arredio. Kate o chamou. Mais uma vez. Ele olhou. Olhou para trás com a pressa de um lince e seguiu. Kate sabia que ele não iria parar, mas o seguiu, e tomou a sua frente na tentativa de chamá-lo. Nada. Ele a colocou de lado com a leveza e a destreza de quem por muitas vezes já havia dito isso. Ela se mostrou solícita, querendo lhe ajudar no caminho. Porque Kate fazia aquilo? Estava louca, por certo. E no ímpeto de ser notada, gritou tão alto que os cães velhos da Sra. Thompson latiram ao longe, resignados. Ao parar, porém, ele simplesmente se virou e disse: Não. Kate não precisou de mais nada. Sabia que aquela resposta era de grande significado, e se virou pra voltar. Até o dia em que ele passaria novamente pela rua. E ela estaria na janela. Olhando os cães da Sra. Thompson dormindo. E a Sra. Thompson a observando da janela.

 

Washington Post, Novembro de 2004: Sra. Nicole Thompson é encontrada morta em sua casa em Garden Street. Os cães também.

Escrito por :::::: Cris :::::: às 21h11
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Kate e o tempo. O tempo de Kate.

Tempo. Temos tempo.

Temos todo o tempo do mundo, mas não mais o que foi. Kate sabia que o tempo era relativo, e pensava nos caminhos que iria seguir. Um minuto depois de pensar sobre isso, viu que tinha perdido tempo. Todos os dias, Kate observava o movimento rotativo do sol e das estrelas, que se erguiam e se iam, e ficava com medo ao pensar no tempo. Um emaranhado de caminhos, de idéias, de conceitos e pessoas. Os ponteiros passariam novamente pelo mesmo lugar, mas Kate observava cada segundo como se fosse o último. Minutos e horas depois, tudo seria diferente, mesmo que o relógio passasse mesmo pelos números iguais. Kate não sabia de seu rosto, de suas marcas do tempo, ainda inexpressíveis. E mesmo assim sentiu medo. Tentava imaginar sua vida dali a um ano, dois. E percebeu que por mais planos que tivesse, ela dependia desse tempo.Escravos de relógio, poderoso relógio. E quantas vezes Kate viu as pessoas chegarem e irem embora de sua vida, na mesma rapidez. Que tempo rápido. Esperar na janela, esperar por alguém que prometeu vir, que demora, ora! Tempo lento. Esperar que a tinta seque e mudar os traços nos quadros de Kate. Tempo ingrato. Levar anos pra amadurecer seus pensamentos, ah! Bendito tempo. Relativo. Incisivo. Sábio. Sábio tempo que faz esquecer, que faz aumentar a saudade. Kate passa na estrada e deixa mais alguém na próxima parada. Kate segue. Tempo. Não temos mais tempo.

Escrito por :::::: Cris :::::: às 12h34
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13/09/2005


Música para distrair Kate.

 

  • Desde hoje.
  • Para sempre.
  • Qria eu mesma, sozinha, esquecer.
  • Desde ontem.
  • Ao que me queira.
  • Queria simplesmente não ver.
  • E se na hora,
  • Perco o sono,
  • E me viro pra no teu corpo me aquecer.
  • Sinto um frio,
  • Um apoio,
  • E acordo pra sonhar e permanecer.
  • Se acordo,
  • Saio da cama,
  • Me olho no espelho sem me reconhecer.
  • E te chamo,
  • Mas não quero,
  • Ter por perto o que me faz sofrer.
  • Se te esqueço,
  • logo lembro,
  • Dos momentos que insistem em ficar.
  • E na lembrança,
  • no teu beijo,
  • O amor que morreu e quer voltar.
  • Fica o desejo, 
  • e uma angústia,
  • A certeza de que não quero arriscar.
  • Te perder de novo,
  • me perder no sono,
  • O sono que embala o sonhar.
  • Sonhos.
  • Vida.
  • Sonhar.
  • Kate e seu violão. Um dia de chuva pra distrair o sol.

Escrito por :::::: Cris :::::: às 13h22
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12/09/2005


Cris Dragonfly. Kate Butterfly.

E um dia Kate resolveu que colocaria Borboletas em suas costas. Chamou um tatuador. E elas estavam ali. Um dia Kate mostraria a todos.

Escrito por :::::: Cris :::::: às 19h28
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