
A rua de Kate, deserta, você já conhece, abriga casas antigas de madeira, e abriga saudades de tempo (novamente o tempo) não volta mais. Pela janela da sala, os vidros embaçados, ela observa os poucos que ali circulam. Ninguém chega perto da casa de Kate, nem mesmo o carteiro. Mesmo porque não há correspondências que liguem Kate ao mundo exterior. Kate nem sequer tinha um computador. Não tinha uma TV. Nem lia os jornais. Kate tinha seu próprio tempo, sua própria vida. Seus interesses que não eram políticos, nem sociais. Kate não queria ser reconhecida nas ruas, nem no próprio bairro. Ela era só. Só dela. Só do mundo. E repleta de ilusões incabíveis que a faziam sonhar. Na janela, porém, algo lhe chamou a atenção: Um menino passava, alguém de mais ou menos a sua idade (Kate observou os traços do rosto, a mesma tática utilizada na hora de pintar). Kate observou o quão bonito era, singelo, cabelos com a cor do sol, olhos brilhantes e azuis, pequeninos. Passava ele com pressa, olhando para a frente, nem sequer viu Kate ou mesmo a casa onde estava. Kate saiu. Cabelos negros, olhos expressivos, caminhar aguçado e arredio. Kate o chamou. Mais uma vez. Ele olhou. Olhou para trás com a pressa de um lince e seguiu. Kate sabia que ele não iria parar, mas o seguiu, e tomou a sua frente na tentativa de chamá-lo. Nada. Ele a colocou de lado com a leveza e a destreza de quem por muitas vezes já havia dito isso. Ela se mostrou solícita, querendo lhe ajudar no caminho. Porque Kate fazia aquilo? Estava louca, por certo. E no ímpeto de ser notada, gritou tão alto que os cães velhos da Sra. Thompson latiram ao longe, resignados. Ao parar, porém, ele simplesmente se virou e disse: Não. Kate não precisou de mais nada. Sabia que aquela resposta era de grande significado, e se virou pra voltar. Até o dia em que ele passaria novamente pela rua. E ela estaria na janela. Olhando os cães da Sra. Thompson dormindo. E a Sra. Thompson a observando da janela.
Washington Post, Novembro de 2004: Sra. Nicole Thompson é encontrada morta em sua casa em Garden Street. Os cães também.




Leia este blog no seu celular