
Respirando. Respirando. Mãos frias. Parece um caminho curto, pouco mais de cem metros entre uma porta e outra. Mas a cada passo, o caminho fica mais distante. E mais. E o medo vai tomando conta, explodindo. Como se consumisse cada vértebra, cada veia. Um frio na espinha que faz o sangue pulsar. E são poucos metros. Agora mais próximos. Ela evitou aquele caminho durante dias e meses, e por força das circunstâncias, ela voltava agora. Kate e sua habitual segurança beirando o caos. Agora na porta. Ela ainda sentia o cheiro familiar. As cores, as mesmas cores que ela viu nascer nas paredes frias. Cor viva, quase embriagante. Ela viu aquele lugar se transformar aos poucos, quase que em uma lentidão interminável. Ela viu de novo em seus olhos a empolgação, as plantas, os projetos. Ela deu sugestões. Kate e sua habitual concordância. O cheiro. O mesmo cheiro. OS mesmos móveis, todos ali, agora dispostos um pouco diferente, talvez, mas os mesmos. Era como um vício, um desses vícios quebrados de repente. E como em um reflexo, tudo voltou à mente de Kate. Eu te vi, te apoiei, te levei comigo. Nos ombros, na mão, no domingo, no fim da tarde, nos sorrisos e na força incansável, eu te vi de novo, eu te vi ir embora e voltar, e nessas idas e vindas, eu vi como te amava, e mais. E mais. Kate respirou. Não havia nada além de silêncio em sua mente, quando parou para observar a vida em poucos segundos. Como aqueles que antecedem a queda de um avião. Impacto. Volta à realidade. E um passado que Kate evitava a todo custo, mas vivia ali. Como aquele lugar. Como o amor que se perdeu em pouco mais de cem metros entre uma porta e outra...


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