E por fim, Paixão e Trabalho. E os dois.
PAIXÃO
TRABALHO
E por fim, Paixão e Trabalho. E os dois.
A rotina de Kate não permitia que ela tivesse uma visão ampla da vida, das cores e de seu próprio destino. Porque o máximo de comunicação que ela tinha com o mundo era a sua parede, com a qual ela conversava, que nunca respondia. A vida de Kate era simples, mas ao mesmo tempo muito complexa. De muitas coisas ela não entendia, ou fingia não entender. Passara a sua vida inteira tentando entender o sentido de tudo, o sentido dos acontecimentos. Mas desistiu quando percebeu que era só mais uma, em uma imensidão de pessoas que buscavam entender algo. Sabia que o sol nascia,porque o via entrar pelas frestas da janela. Sabia que a noite chegava, porque o apartamento ficava mais escuro do que já era. Mas como entender de DEUS, da alma, do coração? Impossível prever o que lhe aconteceria em cinco minutos, impossível saber o que fazia a maré subir e descer. Não era responsabilidade de Kate interpretar sonhos, correr atrás de sinais que apareciam no céu. E era justamente por isso que ela gostava de dar vida às suas telas. Porque ali suas escolhas seriam respeitadas. Ela poderia pintar o azul, mas deixá-lo verde, com apenas uma gota de amarelo. Poderia borrar tudo, e transformar este problema em arte. Poderia amassar a tela e pegar uma branca no armário, com aquele cheirinho de novo. Telas não precisavam de palavras, de explicações. Telas eram simplesmente a arte da vida, colocada em um quadro, exposta e admirada, como Kate gostaria de ser. Como a vida deveria ser. Admirada. Mesmo que fosse difícil, ela um dia aprenderia a ver vida além de seus quadros, além de seu mundinho particular. E tudo seria mais fácil, ou mais difícil.

Nasceu precisamente às 14:22 do dia 21 de dezembro de 1985. A mãe fez questão de anotar data e hora no álbum de fotos com capa bordada. Assim como a primeira mamada, o primeiro sorriso. Tudo o que aconteceu no primeiro ano de vida foi anotado com precisão. Até os cinco anos, ela foi uma criança normal. Apesar de não gostar de bonecas, divertia-se cortando os cabelos das bonequinhas loiras e com carinha de anjo. Tinha os cabelos cacheados e escuros, olhos de um azul enigmático. Era o xodó do papai. Até o dia em que no jardim de infância, ela arremessou uma pedra contra a professora, que a chamou de “menina esquisita”. Dali em diante, foi considerada a ovelha negra da família. Cresceu como tal e tornou-se uma adolescente retraída, que aprendeu a pintar quadros, onde o principal tema era a solidão que sentia. As cores predominantes em suas telas eram sempre o preto, o cinza, o azul. Cores sóbrias, como a sua alma, ela pensava. Quando entrou no segundo grau, resolveu sair de casa e transformou o apartamento da avó (parte que lhe cabia da herança) em um lar doce lar. Lá, apenas um sofá, uma televisão e um atelier com todas as suas obras primas. Passava o dia comendo fast food e tomando refrigerantes. Concluiu os estudos e ingressou na faculdade. Kate agora se sentia importante.. Aluna de artes plásticas. Cabelos negros, lisos e pele branca de quem nunca via o sol. Kate. 19 anos. Uma vida inteira pela frente e um tempo que nunca mais voltaria.