Kate´s Life


30/06/2005


E por fim, Paixão e Trabalho. E os dois.

PAIXÃO

Kate era o tipo de garota que detestava os padrões inabaláveis que alegavam serem desprezíveis as mulheres solteiras. Porque afinal a ditadura de que ela precisava de alguém pra ser feliz? Mas, como todo o ser mortal, ela também já sentira o coração bater mais forte. Uma só vez. Mas de forma especial. Acontecera há 5 anos. Kate era uma pré-adolescente, vestia-se de preto dos pés a cabeça, mas seu estilo chamava a atenção dos meninos no colégio. Ben Kolck era o garoto mais admirado da escola, mas Kate o detestava. Achava ridículo o cabelo com gel, as blusas grudadas no corpo e a maneira irritante como ele passava a mão no cabelo e olhava-se no espelho do ginásio. Embora ele tivesse dez em cada dez mulheres a seus pés, o jeito arredio de Kate era um desafio. Convidou-a mais de cem vezes para um cinema, um café, um sorvete. E nada. Kate não admitia, mas sentia mesmo atração pelo menino que sentava em frente à calçada todos os dias, na saída da escola. Ele tinha os cabelos longos, um perfume gostoso. As camisetas eram surradas e desbotadas, com estampas engraçadas. Ela mal sabia seu nome, mas seus olhos brilhavam quando o via. O que ele fazia ali, todos os dias? Antes mesmo de saber, seu ônibus chegava e ela olhava pelo vidro ele cada vez mais longe. Um dia, ela decidiu que iria a pé pra casa, e esperou por ele. Quando se aproximava, viu outra menina passar correndo por ela. Ela mal pode ver quando se beijaram, e essa foi a primeira e única decepção de Kate. Desde lá ela nunca mais se apaixonou por alguém, por medo de amar, por medo de perder. E assim, com o tempo, o caração dela se tornou um casulo vazio. E Kate não sentiu mais borboletas neste casulo.

 

 

TRABALHO

Trabalhar era algo que nem passava pela cabeça de Kate. Desde cedo acostumada a receber tudo nas mãos (menos carinho), ela se acostumou à vida leve de quem não precisa se sustentar. Mas embora pudesse se dar ao luxo de jogar as pernas para o ar, ela passava o tempo pintando. Pintando as situações da vida. Tinha a plena consciência de que qualquer traço mal feito poderia ser substituído. E de novo. E de novo. Isso acabava por tranqüilizar a menina de dedos longos que podia ver os quadros em uma exposição. Nas telas de Kate, um certo ar sombrio. Ela gostava muito de pintar fontes. Essas fontes que ficam nas vitrines, jorrando água, puxando água. Ela achava aquilo mágico, e comparava a fonte a sua própria vida. A água vai embora e volta. Como um ciclo. Era assim que Kate preferia acreditar que as coisas seriam. E passava horas e mais horas pintando. Sem noção do dia ou da noite. Ela tinha uma certa curiosidade pelo mundo real que estava muito distante de seus olhos. Trabalhar com carteira assinada, com horários, com responsabilidades. Com colegas. Colegas. Aí estaria a grande diferença. Trabalhar com outras pessoas, cumprimentar alguém que não fosse o porteiro do prédio. Ela teria alguém pra dividir problemas, para contar novidades sobre seus quadros. Poderia inclusive, quem diria, presentear o colega no dia do amigo, que ela nem lembrava mais quando comemorava. Trabalharia o mês todo pra ganhar um envelope de dinheiro, igual ao que pai deixava na caixinha do correio. Seria alguém normal. Poderia ser independente e livre. Mas... e seus quadros? Não. Mudara de idéia. Pintar era uma forma de refúgio. E era um trabalho também. Sem remuneração, mas que fazia bem a ela. E isso não havia dinheiro no mundo que pagasse.

 

Escrito por :::::: Cris :::::: às 22h02
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Nesta segunda parte, Kate fala sobre os extremos de nossa existência: Vida e morte.

 

VIDA

A rotina de Kate não permitia que ela tivesse uma visão ampla da vida, das cores e de seu próprio destino. Porque o máximo de comunicação que ela tinha com o mundo era a sua parede, com a qual ela conversava, que nunca respondia. A vida de Kate era simples, mas ao mesmo tempo muito complexa. De muitas coisas ela não entendia, ou fingia não entender. Passara a sua vida inteira tentando entender o sentido de tudo, o sentido dos acontecimentos. Mas desistiu quando percebeu que era só mais uma, em uma imensidão de pessoas que buscavam entender algo. Sabia que o sol nascia,porque o via entrar pelas frestas da janela. Sabia que a noite chegava, porque o apartamento ficava mais escuro do que já era. Mas como entender de DEUS, da alma, do coração? Impossível prever o que lhe aconteceria em cinco minutos, impossível saber o que fazia a maré subir e descer. Não era responsabilidade de Kate interpretar sonhos, correr atrás de sinais que apareciam no céu. E era justamente por isso que ela gostava de dar vida às suas telas. Porque ali suas escolhas seriam respeitadas. Ela poderia pintar o azul, mas deixá-lo verde, com apenas uma gota de amarelo. Poderia borrar tudo, e transformar este problema em arte. Poderia amassar a tela e pegar uma branca no armário, com aquele cheirinho de novo. Telas não precisavam de palavras, de explicações. Telas eram simplesmente a arte da vida, colocada em um quadro, exposta e admirada, como Kate gostaria de ser. Como a vida deveria ser. Admirada. Mesmo que fosse difícil, ela um dia aprenderia a ver vida além de seus quadros, além de seu mundinho particular. E tudo seria mais fácil, ou mais difícil.

 

 

MORTE

Pior do que entender a vida era entender a morte. Ela existia desde muito antes do nascimento de Kate, mas assim mesmo, ninguém na face terrestre estava acostumada com ela. A morte era enigmática, prova do egoísmo dos seres humanos, que mesmo antes de se preocuparem com quem se foi, se preocupam em ficarem sozinhos. Kate não havia tido muitos contatos com a morte, apenas tinha perdido o tio Carlos. Carlos era um homem legal, talvez o único homem legal de sua família. Ela a chamava de pequena notável, desde cedo Kate já era uma artista, mesmo em seus desenhos no jardim da infância. Um dia, a mãe lhe dissera que o tio Carlos estava muito doente, que precisavam vê-lo. Quando chegou no hospital, Kate sentiu aquele cheiro de morte no ar, das paredes frias daquele lugar, do cheiro de flores de cemitério. O tio Carlos estava diferente. Não tinha mais os cabelos engraçados, estava mais magro. Kate sentiu pena dele, mas pode ver que em seus olhos ainda havia muita vida. Quando ela se aproximou, tio Carlos tirou um pequeno pincel que guardava embaixo do travesseiro. Com o olhar doce, entregou a Kate e disse que o pincel era mágico. Que ela poderia viajar por um mundo de imaginação infinito, e que não deveria ser egoísta, deveria dividir isso com as pessoas, da maneira que ela sabia: Pintando. Cinco horas depois, Kate estava ali, deparada com um caixão grande, escuro, com a chuva caindo na sua cabeça. E saiu correndo dali, o pai a encontrou depois de dez horas, nos fundos do estaleiro. Kate não queria aceitar a morte de mais ninguém. E com o pincel na mão, voltou pra casa. Ela não queria pintar a morte. Ela só queria pintar a vida.

Escrito por :::::: Cris :::::: às 21h58
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A partir de hoje, vc conhece Kate. Uma menina que reflete você, que me reflete, ou que não reflete nenhum de nós. Será? Os primeiros blocos da Vida de Kate contam como nasceu, como lidou a vida toda com o dinheiro.

 

 

CRONOLOGIA

Nasceu precisamente às 14:22 do dia 21 de dezembro de 1985. A mãe fez questão de anotar data e hora no álbum de fotos com capa bordada. Assim como a primeira mamada, o primeiro sorriso. Tudo o que aconteceu no primeiro ano de vida foi anotado com precisão. Até os cinco anos, ela foi uma criança normal. Apesar de não gostar de bonecas, divertia-se cortando os cabelos das bonequinhas loiras e com carinha de anjo. Tinha os cabelos cacheados e escuros, olhos de um azul enigmático. Era o xodó do papai. Até o dia em que no jardim de infância, ela arremessou uma pedra contra a professora, que a chamou de “menina esquisita”. Dali em diante, foi considerada a ovelha negra da família. Cresceu como tal e tornou-se uma adolescente retraída, que aprendeu a pintar quadros, onde o principal tema era a solidão que sentia. As cores predominantes em suas telas eram sempre o preto, o cinza, o azul. Cores sóbrias, como a sua alma, ela pensava. Quando entrou no segundo grau, resolveu sair de casa e transformou o apartamento da avó (parte que lhe cabia da herança) em um lar doce lar. Lá, apenas um sofá, uma televisão e um atelier com todas as suas obras primas. Passava o dia comendo fast food e tomando refrigerantes. Concluiu os estudos e ingressou na faculdade. Kate agora se sentia importante.. Aluna de artes plásticas. Cabelos negros, lisos e pele branca de quem nunca via o sol. Kate. 19 anos. Uma vida inteira pela frente e um tempo que nunca mais voltaria.

DINHEIRO

Desde muito cedo ela também aprendeu que o dinheiro era a coisa mais vazia e mais importante da sua vida. Que sem ele ela não viveria, como se fosse o amor de sua vida. O pai era um rico e poderoso fazendeiro. Cheio de dinheiro. Cheio de orgulho. Nem sequer a cumprimentava, nem sequer fazia questão de dizer que era sua filha. Mas o dinheiro estava sempre ali, na caixinha do correio do prédio, em um envelope pardo, sem ao menos um bilhete. Enquanto Kate imaginava os escritos “Com amor, papai!”, tudo o que ela sempre lia era “A/C de Kate Monhardt”. Aceitava porque necessitava. Mas sabia que o dinheiro não comprava o que ela mais queria. Será que o episódio da professora jamais seria esquecido? Será que aquilo era motivo? Ou será que o pai nunca aceitara o fato de a mãe ter lhe dado cinco meninas. O pai sempre quisera um filho. Um menino que ele levaria ao estádio de futebol, ao curso de judô. E Kate era a última esperança, Kate era a caçula. E por complicações na gravidez, a mãe não poderia ter outros filhos. Talvez estivesse ali o motivo de tanto desprezo. Kate nem precisava de tanto dinheiro, muitas vezes dava aos mendigos na rua, alguns trocados, porque o dinheiro não era assim tão importante. Na verdade, ela nem sabia do patrimônio da família, nem queria saber. O pai era estressado por ter de controlar tantas cabeças de gado (inclusive a dele mesmo – Kate tinha a certeza de que a mãe tinha uma amante – pobre tolo !). Talvez o amante não fosse tão rico como o pai, mas deixava a mãe de Kate sempre sorrindo e alheia a todas as grosserias do marido. Agora que ela estava longe, então, nem queria saber de todos esses detalhes. Dinheiro. Dinheiro. Dinheiro. Kate não sabia quanto tinha, quanto ganharia se seu pai morresse, Kate não sabia quanto valia a vida. Mas sentia falta de alguns depósitos de amor. Mas transferências como essa jamais poderiam ser efetuadas em sua família.

Escrito por :::::: Cris :::::: às 21h41
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