Vestida de Branco. Mil convidados naquela Igreja. Um buquê nas mãos. E um vazio imensurável dentro de si. O noivo a esperava, a fitava de longe, como que a admirando mais do que nunca sua beleza. O buquê de 24 rosas vermelhas, apertadas umas contra as outras, a cara doce da daminha de honra que aguardava solene pelo momento de trazer as alianças. Respirou fundo e entrou. A mãe notou que o buquê parecia maior, mas deixou passar despercebido esse mero detalhe. Aos poucos, com passos lentos, como os de um condenado a morte, ela entrou na Igreja. Olhava para todos e via sorrisos de satisfação. Uns porque torciam pela sua felicidade, uns porque estavam com fome e queriam um pedaço do bolo encomendado, sete andares de bolo de chocolate. Mais alguns passos. Hesitou. Não tinha certeza da rota da Igreja, mas lá estava o noivo que ela esperou a vida inteira. Um homem culto, inteligente, uma pessoa de bem. Trabalhador, atraente, sexualmente e psicologicamente, formado, educado, respeitado. A mãe não se continha no orgulho, e parada no altar esperava entregar a filha para o genro perfeito. Que vazio era aquele afinal? Caminhou mais um pouco e chegou no altar. O noivo lhe beijou a mão, e ao seu lado, esperava pelo padre e suas palavras insossas. Enquanto ele falava, ela foi lembrando de sua vida, de seus amores da adolescência. De como experimentou o primeiro beijo, o sexo, o cheiro do outro. De como viu o amor crescer em seu peito, na mesma proporção da dor quando enterrou o namorado, depois de um acidente de trânsito no qual ela estava ao volante. De como se fechou pro amor depois disso, e de como os pais insistiam para que ela se divertisse, mesmo com a depressão instalada. Ela saiu, e saiu, até conhecer o homem agora ao seu lado. Se aquele sinal não tivesse fechado, se ela não tivesse bebido, se o namorado tivesse dirigido, tudo aquilo seria o presente, e ela não estaria se casando com um estranho. Pessoas felizes. E o padre pergunta:
- Luis, aceitas Maria Eduarda como tua legítima esposa?
- Aceito. – Diz ele, com ares de satisfação.
- Maria Eduarda, aceitas Luis como teu legítimo esposo, até que a morte os separe?
- Aceito.
Afinal, a morte era próxima, batia em sua porta e seu peito, quando ela tirou o revólver do buquê e deu um tiro na boca. O buquê vermelho. O vestido também. As lágrimas também. Enfim sós. Até que a morte os separe. Fim.