Ana. Esse era o nome dela. Ana Lia, mas todos a chamavam apenas de Ana. Um dia, ela achou uma carta no chão. Que coisa cafona, ela pensou. Hoje em dia ninguém escreve uma carta à mão, todos mandam e mails. Pegou o pedaço de papel e o levou pra escola. Ana era um menina rica, estudava na melhor Universidade da cidade. Tinha muitos amigos, era popular. A aula acabou e Ana foi pra casa, nem lembrou da carta. Estava muito ocupada com seus afazeres, estava prestes a se formar em psicologia. Ganhou vários prêmios, com artigos científicos, era considerada prodígio para sua idade. Mas, ao entardecer,ela lembrou da carta. Revirou os cadernos, e lá estava ela. Meio suja por causa da poeira da rua, mas legível. Sentou-se na varanda e começou a ler:
“Marcos,
Infelizmente eu não sei como te dizer isso. Sabes como te amo, mas eu não sei o quanto. Depois de anos ao teu lado, eu percebi que não era bem isso que eu queria. Casei-me contigo, mas queria ter te conhecido mais. Tive filhos contigo, mas não os percebo de verdade como meus. Me formei na faculdade, mas preferia ter ido viajar. Viajei, sim, mas não como pretendia. Consegui o carro tão sonhado, mas não sei por quais vias dirigi-lo. Comprei as roupas que quis, montei meu closet, mas não reconheço a alma que me veste. Li demasiados livros, mas nunca me compreendi, nem parei pra ler a minha vida. E por fim, te amei mas nunca consegui me amar de verdade. Essa carta é a despedida, morri pra nascer de novo, espero me lembrar de tudo que fiz nessa vida pra ver se não cometo os mesmos erros.
Amor, Paula”
Fechou a carta. Jogou a mesma no lixo. Depois dela, Ana largou a faculdade. Achou que tinha estudado o bastante para tornar a carta um de seus pacientes, mas viu que não estava preparada. Ana decidiu viajar. Nem que fosse para fazer o que Paula não fez.


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