Kate´s Life


12/04/2005


O que a gente espera da vida?

Eu espero tudo. Tudo de bom e de tudo de ruim. Eu espero os olhares incisivos, os mais apaziguadores que existem. Eu espero que o dia nasça de novo, e de novo, e de novo, eu espero acordar nesse novo dia, até o dia em que eu dormir pra sempre. Eu espero que o novo chegue a cada minuto, e quando o novo não for mais novidade, que eu mude os meus conceitos, pra enxergar mais longe. Eu espero que faça frio, pra eu poder me aquecer. Que faça calor, pra eu poder sentir calafrios. Eu espero que meu coração bata forte, e de novo, e de novo, e mais uma vez, até minha pressão alcançar patamares de infarto. Eu espero sentir sempre um frio na espinha, palpitações, pra eu me sentir viva. Eu espero que faça sol, pra eu poder colocar meus óculos escuros e fazer charme. E espero que chova, pra chegar nos lugares reclamando do tempo ruim, mesmo que eu adore um banho de chuva. E que uma trovoada se faça no céu, pra eu poder observar os raios, a movimentação da natureza. Eu espero amar e ser amada, e se eu não for amada, que pelo menos eu declare meu amor e me sinta aliviada. Eu espero elogios, pra meu ego inflar, mas depois espero amigos, pra me puxar de volta à Terra. Eu espero as críticas, pra crescer como ser humano normal. E espero cometer as maiores loucuras, pra ser apreciada como anormal. Espero que as pessoas lembrem do meu nome, mesmo que seja pra falar mal de mim. Espero ver sorrisos, pra apreciar a beleza alheia. Espero ver uma cara feia, pra fazer careta também. Espero receber impulsos, nem que seja por um pé na bunda. Espero ver a noite e o dia, pra ter a certeza de que preciso dos dois. Espero chorar aos montes, pra limpar os meus olhos, e espero que depois eu chore mais, pra sentir que eu tenho sentimentos. Espero não ter vergonha de nada, pra fazer de tudo um pouco. Espero ser um pouco tímida, pra ver se me controlo um pouco. Espero olhar pra frente e pensar no agora. E espero olhar pra trás, e ver que tudo vai embora. Mas, eu só espero. Um dia, quem sabe, eu faça tudo isso. Nesse dia eu me supero.

Escrito por Kitty às 19h03
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11/04/2005


A festa

Ela chegou tímida. Com os olhos voltados para os outros, os outros voltados para si. Não era o seu melhor vestido, não era sua melhor maquiagem. Mas ela se esforçou para ser alguém normal, no meio que não lhe pertencia. Em luzes intermitentes, e através delas, ela o enxergou. Estava sentado em uma cadeira diferente, olho audacioso, um copo na mão, ele parecia muito mais feliz do que ela. Sentou-se perto. Ele olhou pra ela, mas não se levantou para chegar próximo. Ela continuou olhando, se insinuando, ele tinha olhos tão bonitos. Ele olhava, mas não se levantava. Não adiantava. Homens, ela pensou. Todos iguais.

Resolveu então dançar um pouco, talvez assim ele se aproximasse. Dançou, dançou, e nada. Não adiantou. Ele só olhava, mas nada de se aproximar. Por que não? Seria ela tão desajeitada?

Passou pra um lado, passou ora outro, quase na frente dele, e ele nem sequer foi capaz de levantar. O tempo da festa foi passando. Aquele vazio no salão foi se instaurando, até que ambos ficaram frente a frente. Ele fez sinal para que ela fosse até ele. “Nem pensar”, seu orgulho disse. Eu ir até ele? Pois ele que venha até aqui. Mais uma vez ele fez sinal. E por insistência, ou carência, ela foi. Quando chegou bem perto, o salão já à meia luz, ela percebeu que ele era deficiente, estava em uma cadeira de rodas.

-         Achei que você nunca fosse notar isso. Tentei lhe fazer sinal várias vezes, mas você não conseguia enxergar, havia muitas pessoas entre nós.

-         Desculpe, não sabia que você não podia ir até mim.

-         Como não? A maneira foi diferente, incomum, mas de alguma maneira eu te toquei, e não precisei ir até você pra isso.

-         E como você chegou até mim então?

-         Com os olhos. Eles vão muito além das nossas pernas. Tem muito mais força, mais rapidez. E mais verdade que elas.

 

Às vezes, um esforço vale a pena.

Mas aprender a chegar até alguém além do que sabemos, é enxergar de verdade.

Escrito por Kitty às 21h44
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O nada. Reflexo de que estamos ficando feios?

Já parou para pensar em como nunca chegamos ao chamado “Nirvana”? Não pensar em absolutamente nada. Pois bem, que tal não sentir nada por alguém? Nem ódio, nem repulsa, nem amor, nem pena. Já tentou? Pois bem , em um mundo onde a falsidade impera, podemos dizer que o nada não está muito longe de alcançar. Esteja certo disso.

O mais importante é saber, por convicção, que as pessoas estão longe de entender umas as outras. E mais: Responder, puro e simplesmente, o que lhes é dado. Por obrigação? Não. Por pena? Não. Por reciprocidade. Somente isso.

Existem as pessoas que amamos. Nós declaramos isso a elas, aos quatro ventos, a quem queira ouvir. Essas pessoas vão nos amar também. De certo modo, sim, elas irão nos amar também. Se formos sinceros, então, elas serão sinceras conosco. Se lhes viramos a cara, como cobraremos não receber o mesmo? Se formos arrogantes, como cobraremos não sentir o mesmo? Mas se somos verdadeiros, como não cobrar o mesmo? Como aceitar que poderemos ser tratados como açúcar, como se fossemos quebrar no primeiro instante? Como se a vida já não tivesse nos ensinado que nada é cor de rosa, nem mesmo os nossos sonhos. E se formos sinceros, a verdade dita nos olhos dói muito menos. É só isso que queremos, nós já somos passados pra trás a toda hora, pelo horário, pela vida, por amigos nada amigos, por circunstâncias. E verdade não dói nada não. Verdade alivia as dores, verdade aceita é melhor que mentira descoberta. E a partir desses pequenos detalhes, a gente descobre o nada. Não há mais ódio, não há mais mentira, não se sente mais pena, nem compaixão. Nem dos outros, nem da gente. Em uma grande decepção, a gente descobre que melhor mesmo é seguir acreditando que as pessoas não valem a nossa confiança. Mas não vamos generalizar; É através de atitudes de desonestidade que aprendemos a confiar em nós mesmos. E lidar com o nada sim, porque não? O que é a falsidade, a falta de coragem, a covardia em assumir o que se sente, perante si e perante os outros, perto do que sabemos ser? Nada. Nada como sentir o nada. Como se aquele ou esse não existisse. Como se fosse mesmo, o nada.

 

 

Escrito por Kitty às 14h17
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