Kate´s Life


22/02/2005


A Aliança

Em sua mão, clara e macia, ali estava ela. Objeto estranho, reluzente. Nunca esteve em sua mão antes, porque antes ela pertencia só a si mesma. Uma aliança de ouro maciço, 18 quilates,  brilhando em sua mão. Mas, afinal, que compromisso era aquele? Ela não gosta de anéis de ouro, e muito pior, os anéis lhe pesavam na mão e na alma. Era uma aliança a qual ela não escolhera, mas a vida lhe impôs assim. Como se fosse um fardo, ou uma benção inexplicável. Não sabia ela o porquê, mas mesmo que quisesse, aquela aliança estaria sempre ali. Colocada em seu dedo, de modo invisível, em busca de um amor, em busca de sossego. Que amor era aquele? Inexplicável também. Era um amor diferente, mas que a sufocava. Era amor de medos, era amor de angústia, era amor de temos. Sabia ela que um dia acabaria, porque amor assim não sobreviveria, porque amor que se destrói aos poucos não sobrevive. Mas permeando e ansiando por algo melhor, ela acreditava, fielmente, que o amor salvava as pessoas. Da escuridão, do medo, do estar cego. Como se amor abrisse os olhos, como se amor despertasse algo melhor. E por essas e outras, a aliança continuava ali. Embora todos os dias, ela olhasse para o céu e pedisse que aquele amor ficasse, ou fosse embora de vez. Que a aliança caísse de seus dedos. Que o amor lhe escorresse entre os dedos. E que um dia, a vida a perdoasse, por não ter sido mais forte. Por não ter aceitado uma missão. E que um dia, ela tivesse quebrado essa aliança que o destino lhe pôs nas mãos. Nas mãos claras e macias. Um objeto estranho e reluzente. Apenas um anel para quem via. Apenas um fardo pra que sentia.

 

Escrito por Kitty às 20h19
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21/02/2005


Per Noite

Mais uma noite. Ela escova os dentes, penteia os cabelos, lava o rosto e a alma. Em um sorriso aberto, vê-se no espelho. Não enxerga muito além do que sempre vê, mas aposta que amanhã estará melhor. Ao deitar a cabeça no travesseiro, põe-se a observar o teto. Ele está ali, como em todas as noites, pronto para absolvê-la. Muitas coisas deveriam ser ditas durante aquele dia, a muitas pessoas, mas ela não falou o que deveria. Talvez por falta de tempo, de talento, de medo, de coragem. Ao sinalizar para o teto, ela  tentou alcançar os seus limites. Bateu com a mão no forro da casa, roído pelos cupins, leve, tal como papel. Ao conversar com a fina camada de madeira, ela olha para as fotos da infância na parede. Com as roupinhas da vovó, ela sorria, criança e inocente de seus futuros problemas. Começou a falar de sua vida. Do dia que começou cedo, no ponto de ônibus. Do dia que terminou tarde, já à noite, na porta de casa. Ela correu durante o dia todo, seus pés doíam agora. Assim como o seu coração, cheio de medos e dúvidas. Como poderia colocá-los pra fora, se por mais que gritasse, ninguém a ouvia de verdade? Não se ouvia a ela, se ouvia a sociedade. E ciente de que algo poderia ser feito, ela olhou mais uma vez pro teto e pediu paz para sua vida, que há tempos já não sentia. Mas o teto nem sequer se modificou. Continuou ali, como em todas as noites, e esperou que o dia clareasse, pelas frestas do teto. Porque além de não possuir um bom teto, acima dela estava o dia clareando de novo. Pra começar tudo de novo. Em mais um dia em que o teto não respondeu. Ela sofreu.

 

Escrito por Kitty às 17h30
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