Em sua mão, clara e macia, ali estava ela. Objeto estranho, reluzente. Nunca esteve em sua mão antes, porque antes ela pertencia só a si mesma. Uma aliança de ouro maciço, 18 quilates, brilhando em sua mão. Mas, afinal, que compromisso era aquele? Ela não gosta de anéis de ouro, e muito pior, os anéis lhe pesavam na mão e na alma. Era uma aliança a qual ela não escolhera, mas a vida lhe impôs assim. Como se fosse um fardo, ou uma benção inexplicável. Não sabia ela o porquê, mas mesmo que quisesse, aquela aliança estaria sempre ali. Colocada em seu dedo, de modo invisível, em busca de um amor, em busca de sossego. Que amor era aquele? Inexplicável também. Era um amor diferente, mas que a sufocava. Era amor de medos, era amor de angústia, era amor de temos. Sabia ela que um dia acabaria, porque amor assim não sobreviveria, porque amor que se destrói aos poucos não sobrevive. Mas permeando e ansiando por algo melhor, ela acreditava, fielmente, que o amor salvava as pessoas. Da escuridão, do medo, do estar cego. Como se amor abrisse os olhos, como se amor despertasse algo melhor. E por essas e outras, a aliança continuava ali. Embora todos os dias, ela olhasse para o céu e pedisse que aquele amor ficasse, ou fosse embora de vez. Que a aliança caísse de seus dedos. Que o amor lhe escorresse entre os dedos. E que um dia, a vida a perdoasse, por não ter sido mais forte. Por não ter aceitado uma missão. E que um dia, ela tivesse quebrado essa aliança que o destino lhe pôs nas mãos. Nas mãos claras e macias. Um objeto estranho e reluzente. Apenas um anel para quem via. Apenas um fardo pra que sentia.


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