Quem não se lembra com carinho das férias escolares na época do primário? Passávamos o mês inteiro de julho esfolando os joelhos, brincando de pega pega, esconde esconde, sendo crianças. Mas sempre com aquela expectativa de voltar a estudar. Comprávamos um caderno novo, com aquela capa bonita, um lápis novo, lavávamos a mochila, e com carinho, esperávamos o dia da volta com ansiedade. Claro que as férias eram maravilhosas, mas voltar a estudar era muito bom. Foi isso que centenas de crianças russas fizeram há dias atrás, com aquele brilho nos olhos. Maça na mochila, cadernos encapados, lápis apontado. E uma gana imensa de sentar nas cadeirinhas pequenas. A roupa passada, e um futuro pela frente. E nesse momento dá pra lembrar daquelas brincadeiras no pátio, onde nossas mochilas ficavam enfileiradas na hora da Educação Física. Porém, enfileirados só ficaram os corpos, os pequenos corpos de crianças que só queriam escrever no caderninho uma nova lição. Crianças. Inocentes, cheias de vida, elas não queriam morrer, só queriam voltar a estudar. Talvez de tão inocentes possam ter pensado que as armas dos seqüestradores eram de brinquedo. Que as bombas não passavam de uma mentira. Que o sangue ali era de ketchup. Inocentes crianças. Que não conheceram o primeiro beijo, o primeiro emprego. Que não sabiam nada sobre o sofrimento, apenas brincavam e estudavam. Pelo menos 150 crianças estavam ali. No pátio da escola, não brincando, não correndo, mas mortas. Morte. Talvez as crianças nem saibam o que é morte. Mas viram ela de perto. Sem ter chance de se defender, sem chance de continuar. Como todos nós continuamos. Crianças têm muito a ensinar. Sobre fidelidade, sobre felicidade. E quantas vezes nós não nos permitimos voltar à infância, correr descalços, e tentar ver a vida de uma maneira mais inocente. Dando valor a pequenas coisas, a pequenos gestos. Em troca de uma felicidade a qual jamais viveremos de novo. Em troca de um tempo que já foi, mas que pode durar uma vida. Como a vida dessas crianças russas, inocentes, que jamais voltarão à escola. Que não colocarão maçãs em suas mochilas, nem garrafinhas térmicas com achocolatado. Que não escreverão em seus caderninhos de capa nova. Que não existem mais.
O mundo é um grande círculo de violência.
A vida é tratada como uma brincadeira.
Uma brincadeira que não tem graça nenhuma.


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