Kate´s Life


27/08/2004


Prisão

Quase que sem querer, ela vivia em um cárcere privado. Seus olhos cerrados sobre a própria imagem nos espelho mostravam o reflexo de um coração com medo. Uma série de traumas passados fazia dela apenas uma passagem de tempo, entre aquilo que mais desejava e entre o que deveria ser feito. De algum modo, sua vida teria que continuar. Mesmo sem os fatos de uma vida que ela insistia ser a sua. Preso ao seu coração estava um sentimento estranho, uma mistura de nostalgia, pó, tempo. Era estranho sentir aquilo, era como uma corrente amarrada aos pés que muito caminharam entre pedras, entre flores. De todos os que passaram na vida dela, poucos marcaram o seu nome na mente. Na alma. Tinha poucos anos de vida, mas muitos de experiência. Na pele, uma tonalidade clara, livre de rugas, de vincos. Nos olhos, um tempo que vai e volta. Mas o tempo não volta. Se o passado era mesmo tão insignificante porque não mais existia, então porque era tão importante pra manter vivo um sentimento que ela não queria viver? Porque ela gritava naquela sala escura? Porque ninguém a escutava? Em busca de respostas, ela conversava com as paredes, com os ursos de pelúcia na cama, com as cortinas. As cortinas que iam e viam, com o vento, serenas, brancas, de renda. Em movimentos lentos, elas iam formando formas com o vento. E as respostas, nada. Apenas o silêncio quebrado por uma caixa de música. A caixa tinha uma bailarina. Mas até a bailarina era aprisionada na caixa, e mais ! Era obrigada a dançar cada vez que ela abria a caixa em sua melancolia. Quando observava a bailarina, notava que seus movimentos eram giratórios. Tudo volta ao seu lugar de origem, ela pensava. As coisas. As coisas vão. Como o sentimento dela. Um sentimento de medo, de tempo, de pó, de nada.

Escrito por Kitty às 17h46
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