Kate´s Life


18/08/2004


Vida noturna

Ela não gostava muito de festas. Sabia bem como se vestir, como colocar seu perfume favorito, era uma menina bonita afinal. De uma beleza diferente, mas bonita. Mas sempre que a chamavam para uma festa ela não queria ir. De jeito algum, pois enquanto todos bebiam seus conhaques e coquetéis ela percebia olhares insossos e ao mesmo tempo vazios. Era sempre a mesma rotina. Ela colocava toda a maquiagem possível em seu rosto, a melhor roupa, o melhor perfume. E saía de casa sempre com a mesma sensação estranha. Sempre que chegava na festa era a mesma coisa. Encontrava as conhecidas na fila, abraçava-as, sorria. Dois segundos depois as mesmas conhecidas comentavam a sua roupa, por inveja, por despeito, ou simplesmente para terem assunto durante a fila. Na entrada, os olhares curiosos dos que estavam ali há tempos, esperando consolo e uma absolvição que jamais viria. Ficaria ali, sentada perto do bar, pra chamar a atenção e fingir que sabia beber. Ou então, se posicionaria sob a luz do holofote principal, tentando ter luz, tentando brilhar no meio de mais de mil rostos desconhecidos. Talvez pudesse ir para o meio da pista fingir que estava feliz e dançar os ritmos mecânicos que faziam seus ouvidos zunir. Mas não. Prefere ficar perto da porta, pois ali estaria perto do mundo real em que ela se encontrava. Chegou a sentir sorrisos em sua direção, mas ela mesma havia montado uma teoria sobre a sua vida e a vida noturna: Todos olhavam para todos, mas ninguém se enxergava de verdade. Eram, aliás, vários tipos de olhares. Os insinuantes (joguinhos de sedução), os apertados (para os que esqueceram os óculos), os perdidos (para os que já haviam passado da cota de bebida) e os de pena (para os que insistiam em ser melhores que os outros). Mas em todos esses olhares, o mesmo vazio. Enquanto lamentava o dinheiro aplicado naquela noite, naquele lugar escuro de luzes intermitentes, ela sonhou por um momento estar no alto de uma colina, com um belo gramado, uma árvore pequena, uma companhia agradável. Nem que tivesse de aplicar o dobro do investimento daquela noite, ela preferia estar neste lugar. Um lugar sem música, sem ruídos, apenas o coração pulsando dentro dela, fraco sim, mas pulsando... Ela olhava para aquela multidão e pensava em quantas pessoas chegariam em casa como ela, deitando a cabeça no travesseiro e lamentando uma noite estranha que não os levou a nada. Mas naquela noite ela fez diferente. Apenas observava o vazio daquelas pessoas. Algumas devem ter terminado relacionamentos. Outras, talvez, buscassem um. Mas ela não poderia salvar a si mesmo, que dirá aos outros. E enquanto a maioria dançava na pista e dava risadas altas de felicidades, ela postou-se a sentar no vão da escada principal, sentindo os pés passarem perto da sua cabeça. Mas mesmo assim não se sentiu pisoteada, apenas observou os caminhos que cada um tomava pra subir na vida. Nem que fosse pelas escadas.

Escrito por Kitty às 13h18
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