Consultório estranho aquele. Embora fosse dia, os vidros verdes escureciam a sala de espera de maneira que era impossível ler as revistas em condições de boa visualização. Isso fazia com que o tempo se arrastasse em uma lentidão interminável. A única coisa que a distraía era o gotejar de uma infiltração no prédio. Ao passar dos minutos, o ruído se tornou automático e ela já não prestou mais atenção. Na sala de espera de um consultório de um famoso psicólogo ela ficou pensando em sua vida. Na rotina em que ela se tornara de uns tempos para cá. Tão rotineira quanto a gota que caía e devagar. Nas mãos, alguns anéis de ouro. Vivara. Tiffany & C.O. As melhores grifes estavam em forma de anéis preciosos em seus dedos. Mas o que dizer dos dois profundos cortes nos pulsos? Vão-se os anéis, ficam-se os dedos. Ou seriam os pulsos? Há dias atrás os mesmos cortes jorravam sangue no tapete importado. As manchas não saem com facilidade, mas sua empregada consegue removê-las em uma famosa lavanderia, que o que tem de eficiente tem de discreta, afinal, esse quase suicídio jamais poderia vazar para a alta sociedade que a cercava. Madame Justine. Esse era o nome da mesma sentada no sofá azul do consultório. Levava uma vida vazia de executiva bem sucedida. Mas sua infelicidade custava o mesmo que o Audi estacionado na garagem. Uma luxuosa casa. Contas sub divididas em vários bancos, para o imposto de renda. Madame Justine. Nasceu em berço de ouro, criada em colégio interno, marido banqueiro, filho modelo. O que mais madame Justine gostaria de esperar da vida? Sua carreira de empresária nunca esteve tão estável, consolidada. Madame Justine era rica. Rica como os jogadores de futebol que estão sempre na mídia, rica como as modelos internacionais. Madame Justine. Justine lembra justiça. Lembra justo. Mas... Então porque a vida era tão injusta com ela? Que vazio assolava a sua vida afinal? Agora os cortes já estavam quase fechados. Esta consulta está demorada, ora essa. Madame Justine então teve uma idéia. Resolveu chamar a atenção fazendo um ruído, pois se sentia sozinha naquela sala. Não havia ali uma secretária, nem luz para ler uma revista. Na sala de consulta, o médico consultava os últimos detalhes daquele caso antes de chamá-la. Quando ouviu um estampido vindo da recepção. Abriu a porta correndo. Lá estava madame Justine. Com classe. Sentada na ponta da cadeira. Os anéis nos dedos. As roupas de boutique. E um tiro na cabeça. Caiu no chão. O médico atordoado com a cena. Enquanto o legista liberava o corpo, o psicólogo volta para a sua sala. Abre a ficha da paciente. E escreve, como um laudo final: Morte. Morte de solidão. Caso encerrado.


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