Kate´s Life


16/07/2004


Amores (Im)possíveis

Às vezes é extremamente complicado definir o outro. O que ele sente, interpretar gestos e manias. Mas até que ponto você conhece a si mesmo? Nem sempre conhecemos o que sentimos, do que gostamos, de quem gostamos. É como se um furacão de sentimentos passasse de vez em quando. Algumas vezes você consegue abrigo. Outras, o telhado vai embora e você fica ali, quietinho, na sua, tentando se proteger de algo que está dentro de você. O que exatamente é você não sabe. Como um vírus, desses que a ciência não sabe o antídoto. Como um sintoma de uma doença só sua. Será que temos remédio pra certas coisas? Será que queremos esse remédio. Nunca podemos prever o que vai acontecer. Corremos riscos, perdemos chances, ganhamos outras. Como em um ciclo linear, temos que seguir o caminho, a fila andando devagar e rápido demais. E enquanto a vida passa, estamos aí, pensando. Em várias coisas, no dia de sol ou de chuva, na roupa do vizinho, nos nossos amores e dissabores. Tantos eles que vão e vem, passam por nós nas ruas e vielas, nunca percebemos o seu olhar. Desejo maior de estar junto, sentimento como um átomo cheio de nêutrons ao redor. Pequeno sentimento, menor, mas não menos importante. Que se torna grande, às vezes. Que morre em seguida. Ou que fica. Quem sabe? Estranho sim como os nossos sentimentos, como o amor, puro e singelo sentimento. Acho melhor me proteger do furacão. Vai ser forte desta vez.

Escrito por Kitty às 14h50
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12/07/2004


Direito

Pedro. 16 anos. Segundo a mãe, um bebê grande, saindo das fraldas aos pouquinhos. Super desenvolvido, aos 13 já estava com quase  2 metros de altura. Os olhos apertados de um verde pouco comum estavam brilhantes como nunca na formatura do melhor amigo. Entre um gole de refrigerante e outro (Pedro era politicamente correto), notou a presença dela, no canto da sala de estar. Reparou inicialmente na maneira doce como ela gesticulava com as amigas. Sorria entre um gesto e outro, e por provocação, pensava ele, insistia em retirar a franja lisa da testa, e mexer em seus cabelos brilhantes e negros. Começou a olhar insistentemente até que ela reparou nele. Ana, 15 anos. Menina esguia e alta, sua mãe insistia em levá-la aos testes para ser modelo. Cabelos negros e olhos azuis brilhantes, herança de quatro gerações de belos olhos na família. Modelo ela só queria ver na televisão. Seu sonho era ser advogada. Um desperdício para o mundo fashion. Um toque de charme nos tribunais. Descongelado o tempo, os dois se aproximaram. Quase que em uma coreografia se olharam. Depois de alguns sorrisos a mais, os lábios se tocaram. Uma bela noite, ele pensava. Um príncipe encantado, ela sonhava. Ficaram assim por horas, até que a casa se esvaziou. Perceberam que estavam diante do destino. Que mal havia em ele não ter levado camisinha? Que mal havia em ela não tomar contraceptivos? Foram até o quarto mais próximo. Era a primeira vez de Ana. Era a primeira vez em que Pedro não lembrava onde estava. Desajeitados, sim, no alto de suas adolescências. Ana foi pra casa feliz. Pedro anotou mais um risco no caderninho. Dois meses depois, ela se olha no espelho. Feliz, agora sou uma mulher, ela pensava. Mas será que a maturidade mudaria seu corpo. Olhou mais uma vez. A silhueta esguia agora mostrava uma pequena curva abdominal. Seria excesso de doces? Seria falta de academia? As aulas começariam em breve, como Ana iria assim para a escola? Seu piercing desaparecia aos poucos . Entrou em desespero. Foi ao médico. No papel timbrado do laboratório, um resultado estranho. Beta HCG. Positivo. Ela nunca esquecera daquele dia. Sentiu as pernas tremerem, as mãos suarem, os olhos cerrarem. Contou pra mãe, pra tia, pro pai, pro Pedro. Ele pediu exame de DNA. Ela viu ali sua imagem de príncipe desaparecer. 9 meses e um bebê. Pequeno, frágil, prematuro, de Ana, de Pedro. Ao entrarem na casa de madeira, nos fundos da casa de Pedro, Ana viu uma cena estranha. Ana, Pedro e uma criança. Mas ela estava errada. Eram, na verdade, três crianças sob o mesmo teto. Ana tentou voltar no tempo. Mas não tinha esse direito. Nem que tivesse virado advogada. Um desperdício para o mundo fashion. Um toque a menos de charme nos tribunais.

Escrito por Kitty às 19h43
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