Ela acelerou o quanto pode. Seus pés pressionavam o acelerador de tal maneira que o vidro aberto ia projetando parte do seu cabelo para fora do carro, a mais de 150 km/h. Não era só uma maneira de ela testar a velocidade e o motor do carro zero ganho pelo pai em sua festa de dezoito anos. Festa esta que ainda rolava, com muito glamour, muito requinte, no salão de festas mais badalado da cidade. O carro ainda ostentava um laço gigante, na cor favorita dela, roxo. Era uma surpresa, mas que mal haveria em ela passear com o carro antes de ganhá-lo oficialmente? Na lataria, nem um só arranhão. Ainda brilhando, com aquele cheiro de novo. Já estava entrando na federal agora. Passava da meia noite. O laço ainda lá, repudiado pelo vento. 170 km/h. Os pneus já arranhavam em sua aderência. Quando ela se deu por conta, estava sozinha na estrada. Então cometeu uma loucura. Fechou os olhos e acelerou mais ainda. Agora já estava a 180 km/h. Só ouvia o ruído do motor. Intermitente, poluído, os olhos grudavam no rímel borrado pelo choro de uma menina assustada com a vida. Com a maturidade. Abriu os olhos de repente. Viu uma luz forte. O freio acionado e a capotagem. O laço no carro. O laço na coroa de flores. Lembrança de seus familiares. A mesma família que nunca a enxergou de verdade.


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