Nem o tempo pode apagar
Lembrança. Maldita palavra que nos apega. Maldito passado que não nos abandona. Nosso caminho, nossa jornada, nossa infância. Tudo está lá, nos arquivos da nossa lembrança. A nossa juventude, transfigurada à nossa velhice. Mesmo jovens, mas tão velhos e responsáveis. Nossos livros de alfabetização, onde aprendemos a dizer tudo bem. Ou te odeio. Te amo. Nossos cadernos de recordações, cheios de poemas, dedicatórias. E as piores lembranças: as fotos. Momentos de nossa vida eternizados em formato 10x15. Uma única fração de segundo suficiente para marcar com cores um momento do nosso passado. Seja com a família que se perdeu. Seja com o cachorro que morreu. Com a (o) namorada (o) que se foi para sempre. Lá está uma imagem a qual você olha diversas vezes e não cansa. Que arranca sorrisos ou lágrimas. Foto a qual você queimou com cartas antigas. Amareladas pelo tempo. Ou saindo fresquinhas de um envelope na loja de revelações. Fotos que você guarda debaixo da cama, ou emolduradas na parede do seu quarto. Todos tipos de lembranças, vindo à tona. Nos seus sonhos ou durante o seu corrido dia. Elas aparecem do nada, enquanto você caminha, enquanto fala ao celular. Mas porque o ser humano é tão irracional? Sabendo que o tempo não volta, porque insistimos em lembrá-lo, empacando a nossa vida, trancando a nossa evolução? O nosso passado é importante sim. Mas é totalmente desnecessário. Se a nossa vida segue um único fluxo e ritmo, porque afinal temos a necessidade de lembrar? Quem explica... Só se sabe que o tempo é chave de portas que não se abrem mais. Responsável pelas fitas de vídeo que assistimos por mais de quarenta vezes. Mesmo que saibamos o roteiro de cor. Não importa. Tempo distorcido em nossa mente, que fecha oportunidades em virtude de nossos bloqueios. Imagine quantas vezes você disse “Parece que foi ontem”. “Eu nem vi o tempo passar”. Realmente não viu. O tempo não espera que você lembre de nada. Enquanto você perdia a sua vida lembrando de coisas que já se foram, o relógio da vida ia correndo. Enquanto você manipulava o álbum de fotos, o sol ia nascendo e morrendo. E com ele, a sua pele livre de rugas, agora cheia de sinais do tempo. Vincos que antes marcavam o seu sorriso agora são disfarçados por botox, maquiagem, cirurgia, recauchutagem. Os seus cabelos com fios brancos, dignos de experiência, agora encharcados por tinturas fabulosas, milagrosas. Onde está o seu vigor? Será que ele está apenas no seu passado? Ou será que você ainda canoniza os cirurgiões plásticos, meticulosos em salvar o corpo e deixar a maturidade? Se esse é o caminho, não sei. Mas de certo, só a idéia que estamos envelhecendo sim. Agora fugindo do termo tempo. Envelhecendo quando reclamamos da chuva ou do sol que está muito forte. Envelhecendo quando passamos o dia pensando no extrato bancário, em quantos zeros ele possui (ou seria só o número zero??). Jovialidade tem ligação com humor. Com encarar a vida com outros olhos. Aceitando o fluxo, os minutos, as datas de aniversário, e a idade que você faz questão de esquecer. Aceitando as rugas, os fios brancos no seu cabelo. Aceitando que tudo isso vai culminar um dia. Esteja você idoso, ou de cara limpa. Não importa. Seguir o fluxo quer dizer que o tempo não apaga nosso passado. Mas que tal guardá-lo para sempre? Retire o que ficou de bom, de aprendizado. O resto é lixo. Faça uma lipo na sua mente. Afinal, o bom senso adverte: Gordura de problemas em excesso é prejudicial à saúde...